29 de jul de 2007

A caixa no alto da torre

O Dr. de Marco coçou a cabeça, arrepiando ainda mais os cabelos sempre em desalinho. Após anos de trabalho árduo e com o apoio dos poucos amigos que acreditavam nele, havia concluído mais esse projeto: a caixa negra estava pronta; faltava agora colocá-la em funcionamento e esperar o resultado. A questão que o preocupava e que fazia sofrer a sua não propriamente farta cabeleira era, na verdade, bastante simples: onde instalá-la?

O velho dilema se apresentava outra vez. O povo da cidade já não o evitava como antes, sua fama como pesquisador havia sido reconhecida nacional e internacionalmente e mesmo o famoso Einstein havia se impressionado com seus resultados sobre os efeitos da colisão de fótons (o que, convenhamos, não era tão grande ajuda assim, haja vista a imagem excêntrica do professor alemão); teria sido muito pior há alguns anos, quando era visto em Araraquara (como no resto do Brasil) como o teria sido um alquimista numa cidadela do séc. XIV. Ainda assim, era um homem estranho demais para aquela gente provinciana; seus estudos eram tão variados e à frente de seu tempo que não raro provocavam espanto mesmo entre os cientistas mais ilustres da época: teorizara a telefonia sem fio antes de Marconi, transmitira energia à distância (diante do perplexo povo da cidade), fora pioneiro nos estudos de parabiose (ligação artificial de um ser vivo sadio a outro doente, para fins terapêuticos, sem que o primeiro viesse a adoecer), participou dos incipientes estudos de produção de energia nuclear realizados no país na década de 40, realizou curas consideradas milagrosas devido à incompreensão dos métodos utilizados (ficou célebre a cura do tumor cerebral do filho do poeta italiano Gabriel D’Annunzio, realizada em tempo recorde e sem intervenção cirúrgica). Sem contar ter sido o primeiro no Brasil a fazer chover por bombardeio químico às nuvens a bordo de avião, processo que quase o leva à morte juntamente com o piloto da RAF que acompanhava, em meio à tempestade criada em certa ocasião, enquanto que um ano mais tarde, por incompreensão do processo, outro piloto inadvertidamente fez cair sobre São Paulo uma chuva de granizo com blocos de gelo de até dois quilos de peso; problemas que, acrescidos com os altos custos do vôo, o levaram a desenvolver foguetes caseiros para realizar o ataque às nuvens. E esta é apenas uma parte dos seus feitos, e de seus defeitos, como o povo os via. Outro era ele ser médico; não se compreendia o que o levava a se aventurar pela pesquisa, e em matérias tão fora da rotina clínica.
Ora, um médico deveria se ocupar das doenças das pessoas, o que segundo o pensamento corrente já seria o bastante para não deixar tempo livre às pesquisas em sua própria área, quanto mais em química, física, biologia e matemática. Daí a desconfiança com que era visto.

O mais estranho disso tudo, porém, era que o homem Frederico de Marco era absolutamente normal. Baixo, barrigudo, adepto dos suspensórios, jogava bocha com os amigos, quando então não se distinguia de qualquer outro cidadão comum. Era, a sua maneira, pessoa bem humorada e de uma generosidade dificilmente compreensível nos dias atuais: recusava terminantemente requerer patente de seus inventos e descobertas (o que certamente o teria livrado da pobreza em que vivia) ou deixar o país por centros de pesquisa mais promissores no estrangeiro, por insistentes que fossem os convites; na verdade, este seria outro motivo de estranhamento para a população de sua cidade natal, conhecida que era, entre tantas outras gentes provincianas, pela facilidade com que fechava as portas a tudo e todos que estivessem fora dos limites das convenções de seu cotidiano de cidade do interior.
Tais eram as preocupações do doutor de Marco até que, apelando para o vigário responsável por um dos pontos mais altos da cidade até então, finalmente pôde instalar o dispositivo captador de raios cósmicos embaixo da cúpula de zinco da torre da velha igreja matriz. O coroinha Ignácio de Loyola, que o ajudou na tarefa, anos mais tarde viria a ser um escritor do gênero conhecido como fantástico; poderia ter iniciado sua carreira naquele mesmo dia, caso soubesse dos eventos que estavam prestes a ocorrer.

Às 03:26h, hora local, a caixa negra registrou uma atividade para a qual não fora projetada: por obra do acaso, sua localização coincidira com um ponto de elevada atividade da ainda mal compreendida força telúrica, o campo de energia sutil que emana da Terra e é responsável pela manutenção da vida em sua superfície. Subindo em espiral pela torre da igreja, a força envolveu o dispositivo de raios cósmicos, intensificando sua ação e criando um verdadeiro funil de alta energia desde as últimas camadas da atmosfera e além, alcançando o cinturão de Van Halen, a barreira natural que protege o planeta da exposição direta às mortíferas radiações vindas do espaço exterior, no exato momento em que uma nuvem de plasma de dimensões inacreditáveis, vindo de encontro a Terra, começava a circundá-la. A concentração de energias cósmicas reagiu com o plasma, recombinando seus elementos livres numa reação em cadeia que teria resultado na maior aurora sub boreal jamais vista na história do planeta, não estivessem as emissões resultantes muito acima do espectro de freqüências da luz visível. A perda do espetáculo cósmico, porém, seria um preço baixo a pagar, considerando-se a alternativa: se a nuvem de plasma tivesse prosseguido, teria destruído completa e instantaneamente o cinturão protetor, expondo a superfície da Terra a níveis de radiação letal que nenhuma forma de vida poderia suportar. O planeta se converteria num cemitério.

O fenômeno de reconversão do plasma durou exato 6, 57 . 10 -3 segundo. E ninguém no mundo jamais soube.

Como não o soube o intrigado Dr. de Marco, ao verificar que sua caixa, sem apresentar nenhuma falha aparente, simplesmente parara de funcionar; recolheu o equipamento com um suspiro cansado, disposto a começar tudo de novo. Essa dificuldade vinha se juntar à incompreensão e falta de apoio habituais, de que se ressentiam tanto suas pesquisas quanto seus desalinhados cabelos.

2 contrapontos:

Lanark disse...

Que surreal!

Como eu adoro rotular textos, deixa ver: fantasia epistemológica?

Muito bom, continue assim.

Carlos qualquer coisa disse...

Nossa! Além da imaginação é pinto, se comparar com este texto! Que viajem!

Acordei cheio de sono, quando vi esse texto, pensei: "Vixi, esse é dos grandes", achei que não fosse conseguir chegar ao final. Que nada. Li duma vez só, de olho grudado. Quase entrei no texto.

Achei genial a ficção. Só não sei qual é a ficção maior: toda a viagem da caixa preta, ou o fato desse cientista ser tão desapegado dos frutos que suas descobertas lhe renderiam. Ele tinha que ser beatificado.

Até mais!