06/02/2010

E o Maldito Silêncio...

Todas as melodias que eu capto no vento, no chão, na chuva, nas paredes, nas vozes...

Todas as harmonias que passeiam pela minha mente que passeia por mentes alheias...

Todos os ritmos que chacoalham meu exausto corpo de fogo...

... tudo o que eu não sei traduzir em música.



Nem o sono se parece tanto com a morte quanto isso!

01/02/2010

Imaginem...

Um mundo em que as promessas sempre serão quebradas.

As misérias sempre serão as alheias.

A Esperança sempre aguardará no fundo da caixa.

Vítimas sendo sempre vítimas, mesmo quando são algozes.



Imaginem...

31/01/2010

Perdida na multidão, ela foi

Eu nunca escrevi sobre amor aqui. Eu nunca escrevi nada que fosse real. Nunca achei que precisasse.

Até que ela me achou, perdido na vida. Até hoje.

Hoje, eu não sei aonde ela se perdeu, ou se fui eu que a perdi. Hoje, eu estou perdido na multidão, procurando por ela. Por ela que eu não quis achar quando podia...

Vera Lucia, luz verdadeira de minha vida perdida.

Perdição de minh’alma. Perdição de mim mesmo. Perdoe-me, luz que não iluminou as trevas que não queriam a luz.

A vela que amaldiçoava a escuridão apagou-se. Adeus.

Canto Triste de uma Adaga Enferrujada

Vocês sabem que eu nasci antes de vocês, antes do ferro, antes do bronze, antes do aço; e vocês sabem que eu sobreviverei aos seus escombros — em queratina, em esmalte, em marfim: eu sou o dente de tudo que vive, de tudo que mata.

Vocês sabem o quanto devem a mim, o quanto me amaram antes. Mas agora me rejeitam; então inventaram essa maldita prisão, essa bainha que me oprime, essa escuridão que cega a ambos, a mim e a vocês.

Paz, disseram vocês. Chega de sofrimento e mortes, disseram vocês. Chega de derramar sangue.

E em que sua “paz” resultou, senão num caudal de sangue ainda mais largo, ainda mais profundo, ainda mais gratuito? Sua inteligência serviu para outra coisa senão tornar a carnificina banal, algo que qualquer criança pode infringir a qualquer um — e qualquer um infringir a qualquer criança? Não foi institucionalizada a covardia imbecil do chumbo e da pólvora, da dinamite, do urânio, dos germes até, em nome de sua suposta “paz”?

Para isso me aposentaram, para isso me aprisionaram? “Chega de derramar sangue”?


... e para que serve o sangue, senão para derramar?

Ouçam minha profecia: chegará o dia em que, destituídos de seus malditos projéteis, imunizados de suas abjetas doenças, privados de seus imundos combustíveis, agastados de sua nojenta complacência com a miséria que alimenta vidas inúteis, cercados pelos cadáveres que sua volúpia homicida não pode assassinar outra vez, vocês se voltarão para o passado — implorando perdão, acariciando a empunhadura azinhavrada e clamando para que eu saia de minha prisão e lhes conceda a “paz” que não merecem.

E minha lâmina, quebradiça como folha seca pela ferrugem a que vocês a condenaram — minha sede de sangue há muito esquecida — se desfará em pó contra suas gargantas — imagem da esperança de repouso que vocês acalentaram em vão.

23/01/2010

O que foi, sem nunca ter sido

“Quizá la historia universal es la historia de la diversa entonación de algunas metáforas”.
Jorge Luiz Borges, "La Esfera de Pascal" in "Otras Inquisiciones" - 1952.



Na minha opinião, História é um trançado temporário de elipses sortidas.

15/01/2010

Bestiário

Um escorpião mora em minha língua. Pela minha voz ele ataca, sem provocação, àqueles com quem falo: envenena prazeres, apodrece solicitudes, mumifica esperanças. Não riria disso, mesmo que pudesse.

Uma cobra-cega mora nos meus olhos, enrolada neles. Ambos só eles. Ambos sem cor. Ambos ambidestros. Ambos inúteis.

Um ninho de vespas mora em meus ouvidos. Os sons do mundo me chegam borrados, indistintos, perigosos — carregados de ameaças que o mundo não me faz, destituídos das promessas que não me alcançam, barulhentos num mundo em que silêncio é morte e a morte é ruído. Esse constante ruído — esse ruído constante — esse ruído — ruído — ruído — ruído —

Uma lampréia mora em minha pele e ossos, só boca e dentes e língua sem mandíbula, parasita de outros peixes — coisas — idéias — pessoas. E esses não sabem que eu estou lá. Ou não querem saber.

Um lobo mora, faminto, em minhas vísceras. Se você me encontrar, fuja ou mate-me. Não fará diferença, desde que eu não o alcance primeiro.

Um elefante mora em meu fígado. Quanto mais eu me entorpeço, mais ele me regenera — para sofrer do envenenamento de novo. E ai de quem cruzar os meus passos.

Uma jibóia mora em meus braços e pernas: eles se enroscam em você e tiram seu fôlego bem devagar. E depois eu vou ficar imóvel por seis meses, digerindo, esperando. Esperando outro você. Esperando o mesmo você de sempre.

Um formigueiro mora em meus pés. Não tenho objetivo senão seguir irracionalmente em frente, não tenho descanso senão na morte que não chega nunca.

Um abutre mora em minhas veias, comendo a carniça da civilização, rapinando idéias mortas de sábios esquecidos, esperando que os sábios lembrados morram. Pois eu tenho fome.

Uma tartaruga gigante mora em meu cérebro. Conheço o mundo com remelentos olhos seculares, masco conhecimento com um seco bico córneo, defeco pedras fúnebres: desprezo o passado, desprezo o presente, desprezo o futuro; desprezo a mim mesmo. E ainda estou aqui.

Vermes moram em meu coração.

07/01/2010

An Dàn: O Lobo à minha Porta, o Esqueleto em meu Armário

Quando eu nasci, meu destino estava traçado: eu deveria ser mais um escravo das circunstâncias.

Quando eu descobri que era escravo, eu me revoltei mas ‘meu sangue’ falou mais alto e eu me calei.

Quando eu quis proteger ‘meu sangue’, me resignei: troquei minha liberdade pelo conforto de ser ‘normal’.

Quando eu quis aproveitar a vida ‘normal’, joguei-a fora: fiz tudo o que os meus donos esperavam que eu fizesse.

Quando eu percebi meu erro, era tarde demais e a próxima geração colherá agora os frutos podres de minha semeadura.

Hoje estou a beira do nosso abismo comum, olhando para o futuro com olhos miraculosamente límpidos.

Se arrependimento matasse...



An Dàn: “destino” em gaelico.

02/01/2010

Começou de novo!

Lá vamos nós abraçar o Eterno Retorno por mais 365 dias.

Ano que começou como os outros: festas e catástrofes misturadas. Esperanças e medos misturados. Solidão e companhia misturados.

Tudo misturado, como sempre... Bem, assim somos nós.

Aproveitemos o máximo do que vier!


19/12/2009

Retrospectiva Notas 2009

Apesar de esse ter sido mais um ano tumultuado na história deste blog, não deixei de considerar meus colegas e leitores fazendo...

... bem... digo...


É claro, tivemos algumas postagens dignas de nota, como por exemplo...

... ahn... hmm...


Ora! Estivemos atentos ao que se passou ao nosso redor...

... é... eu...



Bem, feliz 2010, amigos!

13/12/2009

Chiaroscuro

Soneto de Cavalaria à minha Dama Sofredora

Tens a cútis acastanhada dos gitanos,
E dos briosos ameríndios vencidos
Pela sanha dos sombrios fementidos,
Que dos nômades se julgam estranhos.

Tens errantes os olhos ansiosos
De infante a sondar o desconhecido,
Que te levam, sem que tenhas merecido,
Sofrer dos pares os golpes raivosos.

Quisera eu te livrar então te amando,
Da desdita que, em nascer, nos têm a todos
E tu a mim, conforme, sustentando:

E se tolos à refrega presos fomos,
Façamo-nos de aríete, esmigalhando
Aos canalhas que nos pagam os soldos.




Noite de Meu Bem

Linda boneca de porcelana! Eis-me aqui,
Ouça a minha melopéia — ela te trará
Doces paragens com as quais sonhar:
Como prometido, venho te fazer dormir!

Para ti eu trouxe, da noite sem fim,
O brilho friento e austero dos astros;
Agora peço, tendo vindo a teu quarto
Um pouco desse teu calor para mim.

Seja apenas de delírio esse momento:
Desvelem-se do prazer todas as rotas,
Da luxúria abram-se as sombrias portas —
Naveguemos pelo rio do Esquecimento!

Desafogo trago à tua mente atribulada,
Os cansados ossos meus conforto pedem;
Possa o cruel tempo que os relógios medem
Delongar por nós a inexorável marcha.

E enquanto aos outros o Devorador acossa,
Que continue o meu caminhar, incessante.
E possas tu — para sempre deslumbrante —
Reinar eterna entre as outras noivas mortas!