28 de jun de 2007

Uma Assembléia de Sombras, fábula moralista

Por largo rio navegava uma grande embarcação, conduzida por insubstancial timoneiro; a bordo iam três sombras, reunidas em congresso.

A primeira, semelhante a uma criança desmesuradamente crescida e forte, ainda que trôpega e vacilante, assim falou:
—“Eu sou a Humanidade, e meu destino é governar o Universo. Nenhum sonho está fora de meu alcance, nenhum obstáculo pode resistir-me; se sou responsável por inúmeros erros e crimes, cometi-os na busca da Sabedoria e da Glória, que me foram predestinados. A História me fará justiça, pois perdurarei para Sempre!”

A segunda sombra, a mais tênue das três, era instável em seus contornos, como se a todo instante experimentasse forma melhor; declarou:
—“Eu sou a Evolução. Malgrado o Universo negar minha existência, tenho dado mostra de meu poder: tornei a Humanidade capaz de dominar tudo o que chega a tocar, e a alcançar aquilo que se põe fora de seu toque. Ainda que meus filhos pereçam, hei de engendrar de suas cinzas novos filhos, ainda mais perfeitos, que me conduzirão sempre em frente, por toda a Eternidade.”

A terceira sombra tinha a figura de uma senhora velha e alquebrada; com o cansaço marcado na voz gentil, disse nesses termos:
—“Eu sou a Natureza, vossa Mãe e Irmã; trouxe-vos à luz por amor à própria Vida. Minhas leis são duras, mas justas: eqüitativamente dispenso poderes e limites, capacidades e necessidades; a Harmonia entre tudo que existe é meu ardente desejo. Mas vós me ultrapassais em vossas ânsias de poder e realização, e me sujeitais pesada e continuamente à escravidão, da qual me ressinto muito; não poderei suportar tal jugo por muito tempo, pelo que vos peço: contei vossa mão.”

Ao que a primeira sombra respondeu:
—“ Perdoa-me, Mãe; mesmo que a quisesse atender, não poderia.”

A segunda sombra, por sua vez, disse:
—“A mim também perdoa, Irmã, pois ainda que o pudesse fazer, não o quereria.”

A terceira sombra disse então:
—“Eu me submeto, não protestarei em vão.”

A paisagem muda subitamente: as margens de suaves campos dão lugar a um panorama árido, opressivo. Surge à ribeira um atracadouro de pedra; para lá o silente timoneiro dirige a nau. No imemorial cais, está uma sombra alta e ameaçadora. O barco atraca e o timoneiro anuncia:

—“Vossa viagem chegou ao fim. Acompanhai a Sombra que vos espera no cais.”

A sombra da Natureza esconde o rosto entre as mãos e chora; as da Humanidade e da Evolução protestam:

—“Isso não pode ser! Nossa viagem não deve ter fim: não vos pagamos, timoneiro, com nossas dificuldades, nossas dores e esperanças, para servir-nos indefinidamente? Por que deveríamos acompanhar tão sinistro condutor e para onde ele pretende levar-nos?”

Responde o timoneiro:

—“Eu sou o Destino; minha tarefa é conduzir a nau do Espaço pelo rio do Tempo. Vossa jornada, vossas dores e esperanças, não as deveis a mim e nem vo-las cobro; para mim não têm valor, pertencem a vós e a vós somente. Quanto à vossa pergunta, a Sombra no cais é a Morte que vem reclamar-vos e levar-vos-á ao Esquecimento, que é o fado de toda Existência.”

E então, derrotadas e pesarosas, as três Sombras desembarcam e, acompanhando o Segador, perdem-se na bruma desolada do Nada.

E o Destino segue viagem, conduzindo a nau do Espaço pelo rio do Tempo, em direção do crepúsculo da Vida.


Inspirado em E. A. Poe e H. P. Lovecraft

26 de jun de 2007

A noite

Segundo seus hábitos, levantou-se cedo; o sol ainda não havia saído naquele dia, que nada prenunciava de especial. Todos os dias são assim, pensou: normais, um após o outro, até o dia final.
O dia final! O pensamento foi-se como veio. Não tinha sentido pensar sobre o eventual fim da linha, tinha a vida com que se preocupar e essa já lhe tomava tempo em demasia (que haveria de fazer com tempo de sobra?). Voltou então o pensamento para o mundo ainda escuro, lá fora.
"O sol não tem pressa nenhuma em se mostrar hoje" — pensou enquanto se barbeava — "Melhor assim, gosto mesmo do escuro." A noite sempre fora metáfora de liberdade para ele, ainda que não tivesse tempo para aproveitá-la.
Saiu de casa para o céu negro acima dele. "Não entendo, já deveria ter clareado!" Um começo de preocupação nasce nele e o acompanha até a fábrica; as luzes acesas mesmo durante o dia nos vestiários e na oficina não lhe diminuem a inquietude, porém no ambiente não há o menor sinal de tensão. Todos parecem encarar com naturalidade o fato de a noite avançar dia adentro. Mesmo desconfiado, se entrega à rotina do trabalho; produz como de costume, ainda que conversasse menos. Almoça sob a impressão de estar jantando (sensação estranha!); voltando à máquina, não sente o calor sufocante do lugar, como quando o sol sai. As horas parecem fluir algo mais rápidas agora, mas seu serviço não é prejudicado por isso. Ainda assim, não entende: "O sol não nasce e ninguém liga! Aliás, parece mesmo é que ninguém percebeu, como é que pode?"

O fim do turno chega, não o fim do seu dia feito noite. A certa altura chegou a esperar que, saindo para a rua, daria com o sol nascendo, numa curiosa inversão da ordem das coisas. Fosse como fosse, o que deveria ser o entardecer era tão escuro e aparentemente normal quanto fora o resto do dia; não faltava mesmo a agitação do horário do rush. Deu de ombros.
"Bom, se o sol resolveu entrar em greve, não posso fazer nada! Era de se imaginar que, se isso acontecesse, fosse o fim dos tempos; mas como continuo vivo, eu e o resto do mundo, e mesmo o transporte público continua funcionando (mal como de costume), então não pode ser o fim. Pra casa então."
Não foi, porém, diretamente para sua casa; foi para o bar, onde ‘assinava o ponto’ todos os dias, como na fábrica. Lá também não notou a menor inquietação entre conhecidos e fregueses ocasionais; a noite iniciara-se normalmente, uma noite que, no entanto, já durava mais de 24 horas.
Foi para casa, cuidou do seu jantar, não cuidou mais daquele dia.
No dia seguinte, tudo correu como na véspera. Ele, que não havia entrado em pânico antes, encarou tudo com naturalidade. Sonho não foi, pensou, ou não se repetiria; e se o sol não existisse mais, não poderia aparecer hoje. Simples assim.
E simplesmente viveu o dia, como vivera todos os outros. Somente o relógio, moderno chicote de feitor de escravos, dava conta do passar do tempo, mas ele não se constrangeu. Refletiu que tinha sido assim desde sempre, que vivera em função das horas, não do sol, da lua ou das estrelas. Sua vida valia menos do que aquilo que fazia, seu trabalho tomava conta de sua vida, suas contas cuidavam de seu dinheiro e seus sonhos morriam com o nascer do sol. Vivera assim por quase 40 anos, por que haveria de mudar alguma coisa?

Mas mudara. A noite tinha se tornado eterna. O sol, assassino de suas fantasias, havia-se perdido sabe-se lá onde: "Vai tarde!" pensou, "durante sua ditadura eu não tive tempo de pensar, de sentir, minha felicidade tornou-se minha sobrevivência; mas agora, agora você não me controla mais! Agora sou livre, tão livre quanto desejar!"
Com esses pensamentos foi então que ele deixou o emprego, a casa em que morava, passou a viver ao relento sob a lua e as estrelas. Nada lhe importava, não havia mau tempo na eterna noite sempre amena. Saiu pelo mundo e conheceu pessoas, criaturas da noite antes dele, que falavam de seus sonhos e desejos, gente para quem a noite jamais cessara, para quem nunca houve um amanhecer. Ele próprio convidava ao perambular sem rumo àqueles que encontrasse. Na maioria, quase todos na verdade, apenas riam-se dele e de sua ingenuidade, e seguiam vivendo como de costume, como que esperando a volta do sol e do dia, suas obrigações e mazelas, e não querendo deixar nada por fazer, nenhuma rotina por quebrar.
Havia porém quem o seguisse, libertando-se das amarras de uma ordem considerada extinta, qualquer que fosse o motivo; esses, contudo, eram unânimes em viver aquela noite sem fim, sem saber se haveria um fim de noite afinal, sem nem sequer se importar com isso. Foi assim que a vida se abriu e a noite tragou a ele e aos outros; eles que entenderam que sua noite jamais terminaria, que sua vida jamais teria limites.
Ainda que os muros de um hospício tentem convencê-los do contrário...

Escrito por volta de 1980

24 de jun de 2007

Lembrança de infância (rara, preciosa e inútil)



"Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo Homem.
É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do Homem e o cume dos seus conhecimentos.
É a dimensão da Fantasia. Uma região Além da Imaginação."

19 de jun de 2007

Sem título

!

14 de jun de 2007

Evangelho segundo um Amnésico

Tomo Primeiro: Das Origens


I-Em princípio, não era.

II-Não se sabe como o Não Ser veio a Ser, ou se as coisas ocorreram dessa forma; mas, como a Humanidade Legítima é movida por uma curiosidade tão insaciável quanto frequentemente inútil, alguns indivíduos inferiram de certas experiências fora de seu modo cotidiano de avaliar a existência, os conceitos de Início e de Finalidade, neles baseando uma busca pelo conhecimento dessa existência que perdura ainda hoje.

III-Sabeis agora que há uma Humanidade Legítima, com todos os seus nem sempre agradáveis atributos, e certas Entidades Disfarçadas que, por motivos ainda por explicar, caminham entre os Legítimos, e a partir de certa época obscura vêm se multiplicando em número muito superior ao desses Legítimos, trazendo uma confusão ainda maior que aquela a que tais Legítimos são já naturalmente propensos.

IV-Os Pioneiros entre os Explicadores criaram uma ferramenta chamada Nome, cuja função era tornar manipulável o Ser a sua volta e em si mesmos, e que teve o inesperado efeito de mascarar esse mesmo Ser, de tal sorte que os erros e mentiras mais crassos e as descobertas e invenções mais sublimes vieram a ocorrer com o passar do tempo, em decorrência de seu uso.

V-Com a crença na Divindade e sua responsabilidade numa suposta Criação De Tudo Que Existe, Nós (os Legítimos e os Disfarçados tomados como um todo) passamos a criar Leis, para abrandar Nossa incapacidade de viver com as consequências de Nossas próprias ações. Sendo Nós como Somos, in continenti tempore* criamos as Trangressões de tais Leis, e os consequentes Castigos a elas relacionados.

VI-Como consequência desse modo complexo de agir surgiu a crença numa batalha entre o Ser Exterior e Interior de Nós mesmos, e aquilo que observamos e tomamos como sendo a totalidade destes mesmos Exterior e Interior; em outros termos, criamos a Suprema Confusão entre aquilo que somos momentaneamente capazes de observar e aquilo que efetivamente sabemos.

VII-O que Nós momentaneamente somos capazes de observar é óbvio em si; o que efetivamente sabemos do que existe ou deixa de existir é expresso numa única Palavra:

VIII-Nada.

IX-Por conseguinte, vivemos à procura de uma Salvação, ainda que não saibamos de que devamos ser salvos ou para que, e que não estejamos de modo algum dispostos a pagar qualquer preço que seja por um tal benefício; profundamente, por menos que admitamos, temos sérias dúvidas a respeito dessa anelada benesse. Tanto isso é verdade que criamos e recriamo-la de acordo com Nosso humor momentâneo. Quiseramos ter certeza de alguma coisa nessa vida e lutamos por alcançá-la, ou defendemo-la como se já a possuíssemos; seja com for, Nossos supostos Salvadores tornam-se oferendas nos Autos Sacrificatórios que erguemos àquilo que não sabemos.

X-Industriosamente, Nós criamos habitações e conflitos, enxergamos belezas e ilusões, prestamos culto às Nossas vaidades e espalhamos inocentes Glórias sobre o planeta. Em suma, vivemos na plenitude de Nossa ignorância e na insuficiência de Nossa Razão.

XI-Ao fim e ao cabo, fazemos somente aquilo que queremos fazer; ao resto damos o Nome de Sofrimento. Este tem um papel secundário em Nossa existência que, no entanto, deve ser enfatizado, visto que tantos entre Nós julgam-no de soberana importância.

Finda o primeiro capítulo.



Latim tardio: Sem demora; sem intervalo; sem interrupção; sem detença; imediatamente.

Fonte: Dicionário Aurélio Século XXI.

12 de jun de 2007

Momento "O Iluminado"

Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão

Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão!
Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão!
Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão!
Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão!
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Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão: Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão.
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- Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão?
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Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão

Trabalho sem diversão faz de Jack um bobão




Stanley Kubrick (in memoriam)

9 de jun de 2007

Nota explicativa

Lendo o estranho texto que escrevi hoje (e considerando que o publiquei), procurei numa de minhas manias, a Astrologia, um modo de explicar, ao leitor e a mim mesmo, o caráter errático deste blog. Antes, porém, dois esclarecimentos:

1° Não sou um astrológo profissional, o que equivale dizer que considero a Astrologia a partir de um ponto de vista absolutamente pessoal e frequentemente discordante das práticas e idéias dos profissionais da área (eis porque a considero uma mania);

2° Esqueça, por favor, o horóscopo de jornal! Astrologia é a interpretação dos ritmos cíclicos da vida e, como tal, realmente funciona, ainda que ninguém tenha sabido até hoje explicar como
(eis porque a utilizo).

Pois bem: descobri que Marte, o planeta que rege a violência e as iniciativas, progredindo* colocou-se próximo à posição ocupada por Mercúrio (escritos) e Júpiter (exagero) na 11ª casa (amigos distantes) de minha carta de nascimento. Faz-me lembrar de uma imagem mitológica: Ares (o mesmo deus grego que os romanos chamavam de Marte), ao ouvir os sons de uma batalha fossem onde fossem, era visto cair do céu para tomar parte no massacre; o que era temido por todos os guerreiros pois, em sua sanha assassina, o deus não tomava partido nenhum, chacinando combatentes de ambos os lados com igual entusiasmo!

Sob esse augúrio nasceu este blog. Salve-se, quem puder!


*Progressão secundária: método de previsão de condições e tendências da personalidade.

Compte rendu*

O dia amanhece ameno e ensolarado, nessas plagas carinhosamente apelidadas de fim de mundo por um autor perdido. Ouvem-se diversos cantos de pássaros; o periquito maracanã, da casa vizinha, se destaca dos demais; sua dona conversa com ele o dia todo, ao que ele responde com entusiasmo.
Esse maracanã deve conversar em um mês mais do que eu em um ano. Provavelmente, deve se lembrar de mais conversas também...
Eis que surge a necessidade: escrever! Ponho-me em frente ao teclado, reflito por um momento e começo:

Depois do feriado

Ontem saí de casa a ver as ruas enfeitadas para a procissão do “corpus Christi”, o que tenho feito desde que pra cá me mudei; é um acontecimento importante na região, mais que a procissão em si, pois as ruas enfeitadas chamam a atenção, seja pelo apuro técnico das imagens tradicionais, seja pela criatividade dos trabalhos menos ortodoxos. Dessa vez, porém, não aproveitei como de outros anos: circulei pelas ruas sem me deter, como de costume, em trabalho algum, pois nenhum me prendeu a atenção — não me peça alguém a opinião, que esse ano não tenho; também nenhum fato ocorrido no trajeto me despertou do meu torpor. Caminhava distraído, minha mente longe das ruas que meus pés percorriam, cego às pessoas que me cercavam; com certeza, perdi pelo menos um bom tema de redação; menos item(ns) para o meu inventário de idéias não aproveitadas...
Dos caminhos pelos quais minha mente vagava, nada posso dizer, pois se perderam em algum ponto do dia. Deve recordar-se o leitor de que gozo de amnésia; seletiva, é bem verdade, mas não menos legítima.
Normalmente, não sei qual é o dia da semana, ou mesmo o mês do ano corrente; e qualquer evento que não pertença ao corrente ano é um mistério vagando num deserto cinzento, que outras pessoas chamam de memória.



Depois de uma hora, isso é tudo o que consigo!

Creia-me, isso não é uma brincadeira, nem um truque literário; seria um insulto à sua inteligência, e eu não pretendo insultá-lo. Você apenas testemunha a força de uma compulsão patética (melhor dizendo, os seus ainda mais patéticos resultados); porque escrever, para mim, não resulta de um talento ou dom, nem de uma necessidade de ofício. É uma convulsão íntima, visceral e incessante, como se tivesse no corpo, e principalmente no cérebro, um enxame furioso de insetos venenosos, procurando uma saída para futilmente atacar o mundo exterior. Futilmente digo, pois não vejo como poderá deixar qualquer traço que não seja de tédio, após sua inofensiva passagem, posto que ruidosa.
E você, estimado e incauto amigo, é a inocente vítima dessa truculência sem sentido. Peço, pois, que me perdoe se puder.


*Francês: Análise ou exposição sucinta de um fato, de um texto, etc.
Fonte: Dicionário Aurélio Século XXI.

5 de jun de 2007

O circo chegou!





Sim, um circo intinerante está na cidade; na verdade, hoje é seu último espetáculo aqui, a preço único reduzido, o que, segundo a lógica do absolutismo capitalista em que atualmente vivemos (sob os ilusórios nomes de democracia e livre mercado), me parece um sinal de casa vazia. A razão, mais que a falta de dinheiro e o frio reinantes, seria seu próprio anacronismo, sobrevivente que é da Idade Média. Infelizmente não assisti a nenhuma sessão, nem para isso tenho dinheiro. Mas gostaria de saber como se saiu, nesse lugar onde ainda se podem encontrar pessoas que jamais puseram os pés num elevador ou escada rolante; nesse pedaço de mundo, que sob a aparência de andar em compasso com o século vigente, vive ainda na época do nascimento do próprio circo, com seu povo migrante e sofrido, seus trabalhos brutalmente árduos e mal remunerados, suas diversões e aborrecimentos igualmente brutalizantes, seus conflitos estupidamente violentos e mesquinhos...
Curiosamente percebo, pelo que acabo de escrever, que de fato aqui se anda em compasso com o século vigente; o que se vê por estas paragens não difere muito da paisagem do resto do mundo; o calendário insiste em me (nos) enganar, ainda é Idade Média!
Então, por que o circo intinerante se tornou essa nostagia dolorosa que sabe a infância longíqua e inocência perdida (para aqueles dentre nós que tivemos as emoções excitadas por seus prodígios e prazeres, e nossas fantasias embaladas por contos de fadas e folclore, reminiscência também de eras passadas)? Como foi que o simples e honesto esforço de se dar asas à fantasia dialogando com a audiência perdeu o encanto, enquanto seu nome foi apropriado por certos espetáculos altamente técnicos e sofisticados, totalmente desprovidos de magia evocativa?


Ou fomos nós que perdemos o sentido dessa magia? Nós, que saídos cedo demais (e cada vez mais cedo, a cada geração) da época do assombro e do encantamento, passamos a acreditar, tendo como base nenhum argumento convincente, que o mundo, a existência em si, não têm mistério. Nós, que incorporamos a ilusão ridícula dos intelectuais de poltronas&pranchetas, de que basta formular as questões da maneira prescrita e aplicar as técnicas recomendadas para que as requeridas respostas saltem aos olhos, cristalinas e estéreis. Nós que, ainda que nosso raciocínio nos diga o contrário, tomamos por realidade incontestável o testemunho de coisas tão frágeis e manipuláveis como livros, jornais e revistas impressos, noticiários de rádio e tv, opiniões de autoridades auto proclamadas, nosso próprio limitado e tantas vezes distocido ponto de vista; nós que, à guisa de fantasia, consumimos meras ideologias hipnotizantes, ainda que profundamente insatisfatórias; nós, que procuramos na religião ou no ceticismo o que não temos coragem de encontrar dentro de nós mesmos; nós, que buscamos interações ditas “humanas”, através de fios e cabos, monitores e teclados, como eu mesmo, mea maxima culpa, faço agora. Nós, afinal, que partilhamos a grande ilusão da inteligência, paulatinamente tornada farsa e, finalmente, veneno da existência de nossa espécie...
Eis que, mais uma vez, o calendário realiza seu truque de transformação: estamos no início da Idade Moderna agora, com sua empáfia de auto-suficiência, sua sanha de domínio e exploração da natureza do planeta e da humanidade, seu vertiginoso e custoso vício de geringonças e modismos logo tornados lixo, e de lixo convertido em mais modismos e geringonças. Numa palavra, progresso!
Com que objetivo, não se sabe; enfim...


Palavras amargas, bem o sei; amargas como o é, involuntariamente, esse fantasma de lona e serragem, que durante três dias assombrou a pequena cidade modorrenta onde também eu hiberno, na expectativa de um dia caminhar acordado, sonâmbulo que sou. Esse fantasma que me chacoalha inutilmente, na tentativa de me lembrar alguma coisa que eu não sei, ou de me ensinar alguma coisa de que já me esqueci.

2 de jun de 2007

Conversa à toa

Amnésico: — Quando foi que eu comecei a esquecer as coisas?
Autor: — Sei lá, não lembro...

Cinco minutos depois:

Amnésico: — Quando foi que eu comecei a esquecer as coisas?
Autor: — Sei lá, não lembro.

Cinco minutos depois:

Amnésico: — Quando foi que eu comecei a esquecer as coisas?
Autor: — Sei lá, não lembro.

Cinco minutos depois:

Amnésico: — Quando foi que eu comecei a esquecer as coisas?
Autor: — Sei lá, não lembro.

Cinco minutos depois:

Autor: — O que foi que você perguntou, mesmo?
Amnésico: — Sei lá...




Fonte de inspiração: blogs
O mundo é uma bisteca!!!! e Movimento Revolucionário pela Transformação em Alpacas