9 de jun de 2007

Compte rendu*

O dia amanhece ameno e ensolarado, nessas plagas carinhosamente apelidadas de fim de mundo por um autor perdido. Ouvem-se diversos cantos de pássaros; o periquito maracanã, da casa vizinha, se destaca dos demais; sua dona conversa com ele o dia todo, ao que ele responde com entusiasmo.
Esse maracanã deve conversar em um mês mais do que eu em um ano. Provavelmente, deve se lembrar de mais conversas também...
Eis que surge a necessidade: escrever! Ponho-me em frente ao teclado, reflito por um momento e começo:

Depois do feriado

Ontem saí de casa a ver as ruas enfeitadas para a procissão do “corpus Christi”, o que tenho feito desde que pra cá me mudei; é um acontecimento importante na região, mais que a procissão em si, pois as ruas enfeitadas chamam a atenção, seja pelo apuro técnico das imagens tradicionais, seja pela criatividade dos trabalhos menos ortodoxos. Dessa vez, porém, não aproveitei como de outros anos: circulei pelas ruas sem me deter, como de costume, em trabalho algum, pois nenhum me prendeu a atenção — não me peça alguém a opinião, que esse ano não tenho; também nenhum fato ocorrido no trajeto me despertou do meu torpor. Caminhava distraído, minha mente longe das ruas que meus pés percorriam, cego às pessoas que me cercavam; com certeza, perdi pelo menos um bom tema de redação; menos item(ns) para o meu inventário de idéias não aproveitadas...
Dos caminhos pelos quais minha mente vagava, nada posso dizer, pois se perderam em algum ponto do dia. Deve recordar-se o leitor de que gozo de amnésia; seletiva, é bem verdade, mas não menos legítima.
Normalmente, não sei qual é o dia da semana, ou mesmo o mês do ano corrente; e qualquer evento que não pertença ao corrente ano é um mistério vagando num deserto cinzento, que outras pessoas chamam de memória.



Depois de uma hora, isso é tudo o que consigo!

Creia-me, isso não é uma brincadeira, nem um truque literário; seria um insulto à sua inteligência, e eu não pretendo insultá-lo. Você apenas testemunha a força de uma compulsão patética (melhor dizendo, os seus ainda mais patéticos resultados); porque escrever, para mim, não resulta de um talento ou dom, nem de uma necessidade de ofício. É uma convulsão íntima, visceral e incessante, como se tivesse no corpo, e principalmente no cérebro, um enxame furioso de insetos venenosos, procurando uma saída para futilmente atacar o mundo exterior. Futilmente digo, pois não vejo como poderá deixar qualquer traço que não seja de tédio, após sua inofensiva passagem, posto que ruidosa.
E você, estimado e incauto amigo, é a inocente vítima dessa truculência sem sentido. Peço, pois, que me perdoe se puder.


*Francês: Análise ou exposição sucinta de um fato, de um texto, etc.
Fonte: Dicionário Aurélio Século XXI.

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