28 de set de 2007

Morte de um Mísero

Ficamos nos olhando, eu paralisado pelo choque, ele como se eu fosse uma miragem.
Quis perguntar o que lhe aconteceu mas as palavras não saíram, e naquele momento pouco importava como ou porque as coisas tinham se passado; aquele andarilho caído ao lado da estrada, coberto de poeira e sangue estava morrendo, e não queria ficar sozinho com sua morte. Sem dizer palavra, fez um esforço para erguer a mão; pensei que poderia me complicar, até mesmo ser suspeito de assassinato; mesmo assim, num impulso eu a pequei. Estava suja de terra e mato, como se ele tivesse agarrado o chão numa tentativa de ancorar-se à sua vida miserável, o mais certo é que quisesse, como agora, companhia; pois a terra que ele apertara não devolvera o aperto de sua mão: ela lhe dera a existência e em breve o acolheria de volta, só não podia afastar a solidão que o envolvia, a urgência que se lia em seu rosto.
Eu olhava para ele incapaz de falar, subitamente consciente que poderia ter sido qualquer um a estar ali, mesmo eu, morrendo sozinho da mesma forma como havia vivido, sem como nem porque, inexistente para os outros, vazio de si mesmo; então o aperto de sua mão ficou mais forte, aqueles lábios inchados se entreabriram sem que som saísse deles. Seus olhos brilharam como super novas, e então se apagaram.
Assim acabava uma história, uma vida: com um ato de duvidosa solidariedade, um mundo de perguntas deixadas sem respostas, numa tarde de sol forte; olhando os poucos restos que ele deixava para trás, me lembrei de um quadro de Hieronymus Bosch em que um infeliz recebe a derradeira visita. Naquele momento, tive a sensação de ter vindo aqui justamente para fazer as vezes da morte, tomar pela mão aquele pobre-diabo e retirá-lo da tela. E senti frio...

11 contrapontos:

Lanark disse...

Você sabe como eu tenho um fraco pela Morte, não é?

Muito bom o texto.

E aliás, essa última frase é uma referência à história em que Sandman vai ao Inferno ou é uma pequena sincronicidade?

Anônimo disse...

Olá Sr. Amnésico!!!
Passei pra dizer que esse texto tá show e que adoro xeretar o seu blog, as vezes me faz rir e em outras refletir.

Bjão!

Lüb disse...

E nada de "palavras finais".
Fazer a vez da morte,
para quem esta morrendo não faz diferença de quem esta la, no máximo o fato de alguém estar la.

Foi apenas uma desculpa para mostrar o quadro, ou o quadro aconteceu de aparecer no texto?

Causalidade, mas no fim, interessa o resultado.

Anônimo disse...

De boa... Nem li direito o seu post e vim apenas para divulgar o meu... Veja lá o Jornalóide, falô!
Fui!

Anônimo disse...

Cá entre nós... Aquela dos mutantes da Record está parecendo o roteiro do chatíssimo X-Men.
Se eles soubessem que a tal evolução se baseia na deterioração genética, também conhecida por Mutagênese, eles ficariam p...

vera maya disse...

Gostei do texto...

E quando vivi essa situação, nao senti frio, nem tristeza.
A morte nao me assusta mais, o desamparo sim..
Beijos

Fernanda Passos disse...

Ai, senti arrepio! Bom teu texto, muito. A morte é fascinante, exatamente pq somos ignorantes em relação a ela. Já senti esse sentimento tb. O frio..............é o desaparecimento. Para Hannah Arendt, o mais radical evento que ocorre com um ser humano.
Bjs.

B. disse...

A morte é algo fascinante, não é? Eu, pelo menos, acho.
Mas, pensando bem, só se for a morte de um desconhecido mesmo... ou a minha. Afinal não teria como eu sentir falta. E eu sou egoísta mesmo, fazer o quê?
Excelente teu conto, moço.


Beijo meu.

Johnny disse...

"...It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die...

This is the end!!!" JM

Jota disse...

Existe medo maior do que o que antecede em instantes o momento final da vida?

Acho que só o medo da angústia que é ver-se envelhecer, tendo passado pela vida sem vivê-la.

Não passa um único dia em que não me faça o nobre favor de lembrar que a pior morte possível é o próprio medo, em si. Medo de viver. O cagaço de enfrentar o desconhecido e de peitar quem quer viver tua vida por você.

É de dar arrepios, mesmo em pleno verão.

Abraços.

Arthurius Maximus disse...

Um belo texto. A morte, como o nascimento, nos tocam de formas diferentes, porém tão parecidas. Mesmo não estando sós, são momentos de solidão e desespero quase absolutos. Nossa dor é tão imensa, que o mundo todo passa a ser irrelevante.. Cabe a nós enfrentarmos o fim com a dignidade possível e procurar que, como quando nascemos, tenhamos pessoas que nos amam por perto.