1 de jul. de 2008

Três Poemas de Dor e Mistério

Um Sonho Dentro de um Sonho

Edgar Allan Poe

Receba meu beijo sobre a fronte!
E, em apartando-nos doravante,
Permiti-me que te conte -
Não te enganaste, ao ter suposto
Que minha vida tem sido um sonho;
‘Inda que a esperança quede extinta,
Pela noite ou pelo dia,
Numa visão, ou em nada ainda,
Estaria assim menos perdida?
Tudo o que vemos ou supomos,
Será apenas um sonho dentro de um sonho.

Me encontro em rumorosa
Praia bravia e tormentosa,
Tendo eu a mancheia,
De dourados grãos de areia -
Quão poucos! E tão céleres, contudo
Por dentre os dedos vão-se ao fundo,
E eu soluço! - E eu soluço!
Oh Deus! Não lhes poderia eu reter
A custa de mais forte os prender?
Oh Deus! Não há um só que eu possa
Livrar da onda impiedosa?
Será tudo o que vemos ou supomos
Senão um sonho dentro de um sonho?


Os Horrores do Sono

Emily Brönte

O sono alegria não me traz,
Recordação a nunca terminar,
Em mistério minha alma se desfaz
E vive a suspirar.

O sono descanso não me traz;
Dos extintos possa a sombra,
Meus olhos despertos não ver jamais,
Rodeando minha cama.

O sono esperança não me traz,
As profundezas do sono os vai evocar,
E sua triste imagem faz,
Aumentar meu pesar.

O sono vigor não me traz,
Para lutar, nenhuma força nova,
Apenas singro em revolto mar,
Uma vaga inda mais trevosa.

O sono amizade não me traz,
Que traga ajuda e anelo,
Com que desprezo me vêm eles mirar,
E eu desespero.

No sono desejo não há,
Em que meu dorido coração folgue,
Tudo em mim quer se olvidar,
No sono eterno da morte.


Litania a Satã

Charles Baudelaire

Oh, primogênito entre os Anjos e deles o mais sábio,
Oh, caído Deus, dos céus pelo destino derribado,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Oh, primeiro dos exilados vitimados pela intriga,
A quem, porém, tem o ódio tornado mais forte ainda,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Oh, Rei subterrâneo, onisciente,
Pacificador do homem, eterno descontente,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Aos leprosos e excomungados tendes mostrado,
Que Paixão é o Paraíso lá embaixo,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Por vossa senhora, a Morte, nos é garantida,
A Esperança, imperecível concubina,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Tendes dado aos Culpados a face tranqüila,
Que amaldiçoa a ralé que cerca a guilhotina,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Conhecidas vos são as entranhas da Terra zelosa,
Onde Deus escondeu gemas deveras preciosas,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Vossa é a mão que se estende salvadora,
Àquele que, em seu sono, pelos telhados perambula,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Pelo poder vosso o Ébrio de titubeantes pés,
Cruza as tumultuadas ruas sem qualquer revés,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Para consolo de nossa fraqueza nos destes o uso,
Arguto e eficiente da pólvora e do chumbo,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Vosso terrível nome como em piche está escrito,
Na implacável fronte dos homens ricos,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Levam vossos passos a
secretas vizinhanças obscuras,
Onde mulheres, por amor, imploram pela tortura,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

Pai daqueles a quem Deus, com furor tempestuoso,
Lançou fora do Paraíso com espada e fogo,
Satã, enfim, apiedai-vos de nossa dor.

9 contrapontos:

ex-amnésico disse...

A Dream Within A Dream

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow-
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold within my hand
Grains of the golden sand-
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weep - while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?


The Horrors of Sleep

Sleep brings no joy to me,
Remembrance never dies,
My soul is given to mystery,
And lives in sighs.

Sleep brings no rest to me;
The shadows of the dead
My wakening eyes may never see
Surround my bed.

Sleep brings no hope to me,
In soundest sleep they come,
And with their doleful imag’ry
Deepen the gloom.

Sleep brings no strength to me,
No power renewed to brave;
I only sail a wilder sea,
A darker wave.

Sleep brings no friend to me
To soothe and aid to bear;
They all gaze on, how scornfully,
And I despair.

Sleep brings no wish to fret
My harassed heart beneath;
My only wish is to forget
In endless sleep of death.


Litany to Satan

O grandest of the Angels, and most wise,
O fallen God, fate-driven from the skies,
Satan, at last take pity on our pain.

O first of exiles who endurest wrong,
Yet growest, in thy hatred, still more strong,
Satan, at last take pity on our pain.

O subterranean King, omniscient,
Healer of man’s immortal discontent,
Satan, at last take pity on our pain.

To lepers and to outcasts thou dost show
That Passion is the Paradise below.
Satan, at last take pity on our pain.

Thou, by thy mistress Death, hast given to man
Hope, the imperishable courtesan.
Satan, at last take pity on our pain.

Thou givest to the Guilty their calm mien
Which damns the crowd around the guillotine.
Satan, at last take pity on our pain.

Thou knowest the corners of the jealous Earth
Where God has hidden jewels of great worth.
Satan, at last take pity on our pain.

Thou stretchest forth a saving hand to keep
Such men as roam upon the roofs in sleep.
Satan, at last take pity on our pain.

Thy power can make the halting Drunkard’s feet
Avoid the peril of the surging street.
Satan, at last take pity on our pain.

Thou, to console our helplessness, didst plot
The cunning use of powder and of shot.
Satan, at last take pity on our pain.

Thy awful name is written as with pitch
On the unrelenting foreheads of the rich.
Satan, at last take pity on our pain.

In strange and hidden places thou dost move
Where women cry for torture in their love.
Satan, at last take pity on our pain.

Father of those whom God’s tempestuous ire
Has flung from Paradise with sword and fire,
Satan, at last take pity on our pain.

Danilo Moreira disse...

Bacana, sombrio, mas bacana.

Nos tres, fica evidente o veneno plantado pela vida de cada um, cuja substancia parece corroer o coração e os sonhos de cada um.

Esse ultimo Litania a Satã deve ter causado uma polemica na epoca em que foi publicado...

Enquanto lia esses poemas tb fiquei pensando como deve ter sido duro traduzi-los sem que perdessem o sentido.

Abçs!!!! Obrigado pelo comentário no meu blog.

Como explicar para uma criança um simples pesadelo que na verdade, não é tão simples assim?

Entendeu?

Então, confira:

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O Homem do Sonho

http://emlinhas.blogspot.com/

EM LINHAS... 1 ANO
Quando as palavras se tornam o nosso mais precioso divã.
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Isolado disse...

Pô man, essa ladainha pro capeta é
muito boa, sensacional! Que vc acha
de meter um som nela!.
Enquanto isso, vou reza-la todas as
noites antes de dormir.


Yeeeaaahhhhhh

FOXX disse...

me recuso a ler poe
me recuso!

mas bronte e baudelaire é otimo

Unknown disse...

Mas que perfeitas palavras voce usou nessas traduções!
Se tiver um tempinho, queria ver essas aqui traduzidas por você. Acho que a interpretação delas nesse video http://youtube.com/watch?v=WwrVqFdXp0c(Entombed acompanhado pelo Stockholm Royal Ballet) pode ajudar, inclusive me parece a trilha sonora e visual perfeita para seu post. 1abraço!
Down here on the ground since it all began
Experiment in moral and behavior
In spite of all imperfection I'm a fan of man
The worm is my rose too

Many my name
But one and the same
Chaos, being
And the everlasting flame

[chorus:]
Phosphoros
Lucifer
Stand up!
In praise of the morning star
Phosphoros
Lucifer
Say it!
Chief Rebel Angel
Phosphoros
Lucifer
Stand up!
In praise of the morning star

Don't get too cocky, keep yourself small
Don't ever let them see you coming
Look at me, underestimated from day one
You never see me coming, I'm a surprise

Solid my game
We're one and the same
The chaos, the being
And the everlasting flame

[chorus]

Watching, waiting
Holding my breath
But I'm no pupppeteer
The stage is set, you pull your own strings now
Like butterfly wings
Once they're touched they never leave the ground
No,
I don't make things happen here

[chorus]

Phosphoros
Lucifer
Say my name

salveco disse...

Foi vc quem traduziu,cabecinha? >Interessante.Como é mesmo o nome da heroína de Poe?E aquela classica cena do pêndulo cortante a ameaçar o pobre infeliz no mármore frio? Abraço fraterno...Mandarei-te algo de Arguedas....ZZ SLV

Anônimo disse...

Fiquei por aqui revirando o seu “caderno de notas”...

Devo dizer que vi muita coisa boa “nessas linhas” e me impressionei com a tua capacidade “em não dizer absolutamente nada” e como não me senti “entediada”, cheguei até onde o tempo me permitia.

Agradou-me muito teu modo de escrever, a facilidade que tens de colocar a palavra, teu bom humor em muitas postagens, alguns dos teus poemas, e o extremo bom-gosto na escolha de outros poetas.

Enfim, um lugar aprazível de se estar!

O texto anterior tocou-me profundamente...

Deixo sorrisos, estrelas e flores, enfeitando a tua tarde. Um beijo no coração!

Fernando Amaral disse...

Esses insones...

ex-amnésico disse...

Agradeço a todos pelos gentis comentários e por tão galhardamente silenciarem sobre os vários erros cometidos (ora corrigidos)!

Tentarei ser mais cuidadoso e menos neurótico (corrigi os textos cinco vezes!) daqui em diante...