9 de nov de 2008

Cartas de um homem na solitária

De Nazim Hikmet, 1938

1
Eu gravo seu nome na pulseira de meu relógio
com minhas unhas.
Onde estou, você bem sabe,
não tenho um canivete de cabo perolado
(eles não me dão nada afiado)
ou um plátano com a copa entre as nuvens.
Árvores podem crescer no terreiro
mas eu não tenho permissão
de olhar para o alto e ver o céu...
Quantos outros haverá aqui?
Eu não sei.
Estou só, longe deles,
eles estão todos juntos, longe de mim.
Falar com qualquer um além de mim mesmo
é proibido.
Então eu falo sozinho.
Mas minha conversa acaba tão aborrecida,
minha querida, que eu canto canções.
E, você bem sabe,
aquela minha voz horrorosa, eternamente desafinada
acaba por me tocar tanto
que meu coração sangra.
E como o orfão desamparado
perdido na neve
daquelas velhas histórias, meu coração
— com pálidos olhos úmidos
e fungando sempre —
só quer se aninhar em seus braços.
E não me envergonha
ser nesse momento
tão fraco,
tão egoísta,
tão humano somente.
Sem dúvda meu estado pode ser explicado,
fisiologicamente, psicologicamente e o que mais.
Ou talvez seja
esta janela gradeada,
este pote de barro,
essas quatro paredes,
que há meses me impedem de ouvir
outra voz humana.

São cinco da tarde, minha querida.
Lá fora,
com seus áridos,
estranhos ruídos,
sua abóbada barrenta,
e um magro cavalo manco,
imóvel na infinitude
— entenda, isto é suficiente para levar alguém à loucura —
lá fora, com toda a sua indústria e toda a sua arte,
uma noite calma desce rubra sobre um espaço sem árvores.
Hoje outra vez, a noite cai subitamente.
Uma luz alumiará o magro cavalo manco,
E o espaço sem árvores, nesse lugar de desesperança,
exposto a minha frente como o corpo de um homem rude,
de repente se encherá de estrelas.
Alcançaremos o invetável fim, ainda uma vez.
quando se diz que o palco está pronto
para a exibição de uma elaborada nostalgia.
Eu, o homem em mim,
de novo exibirei meu costumeiro talento,
e cantarei um lamento fora de moda,
na esganiçada voz de minha infância.
De novo, valha-me Deus, esmagará meu infeliz coração,
ouví-la em meus pensamentos,
tão longe,
como se eu a visse num embaçado espelho quebrado...

2
É primavera lá fora, minha querida esposa, primavera.
Lá de fora, de repente vem o cheiro
da terra fresca, pássaros cantando e todo o resto.
É primavera, minha querida esposa,
o terreno lá fora faisca...
E aqui a cama fervilha de insetos,
a água não congela mais no pote,
e o sol da manhã inunda o concreto...
O sol — todo dia,
agora até o meio-dia
ele vem até mim e se vai,
apaga e acende...
E enquanto o dia se torna tarde, sombras vestem os muros,
o vidro da janela gradeada pega fogo,
              e é noite lá fora,
              uma noite clara de primavera...
E aqui dentro faz a hora mais escura da estação,
resumindo, o demônio Liberdade,
com suas escamas brilhantes e olhos chamejantes,
se apossa do homem em nós
              especialmente na primavera...
Sei disso por experiência, minha querida,
              por experiência...

3
Hoje é domingo.
Eles me trouxeram para tomar sol pela primeira vez
e eu fiquei lá parado, consciente pela primeira vez na vida
              de como o céu é distante,
              de como é azul
              e de como é vasto.
Então eu me sentei respeitosamente no chão.
Me encostei no muro.
Por um instante, nenhuma armadilha no caminho,
nenhuma luta, nenhuma liberdade, nenhuma esposa.
Apenas terra, sol e eu...
Estou feliz.

4 contrapontos:

o amnésico disse...

LETTERS FROM A MAN IN SOLITARY

1
I carved your name on my watchband
with my fingernail.
Where I am, you know,
I don't have a pearl-handled jackknife
(they won't give me anything sharp)
or a plane tree with its head in the clouds.
Trees may grow in the yard,
but I'm not allowed
to see the sky overhead.....
How many others are in this place?
I don't know.
I'm alone far from them,
they're all together far from me.
To talk anyone besides myself
is forbidden.
So I talk to myself.
But I find my conversation so boring,
my dear wife, that I sing songs.
And what do you know,
that awful, always off-key voice of mine
touches me so
that my heart breaks.
And just like the barefoot orphan
lost in the snow
in those old sad stories, my heart
- with moist blue eyes
and a little red runny rose-
wants to snuggle up in your arms.
It doesn't make me blush
that right now
I'm this weak,
this selfish,
this human simply.
No doubt my state can be explained
physiologically, psychologically, etc.
Or maybe it's
this barred window,
this earthen jug,
these four walls,
which for months have kept me from hearing
another human voice.

It's five o'clock, my dear.
Outside,
with its dryness,
eerie whispers,
mud roof,
and lame, skinny horse
standing motionless in infinity
-I mean, it's enough to drive the man inside crazy with grief-
outside, with all its machinery and all its art,
a plains night comes down red on treeless space.

Again today, night will fall in no time.
A light will circle the lame, skinny horse.
And the treeless space, in this hopeless landscape
stretched out before me like the body of a hard man,
will suddenly be filled with stars.
We'll reach the inevitable end once more,
which is to say the stage is set
again today for an elaborate nostalgia.
Me,
the man inside,
once more I'll exhibit my customary talent,
and singing an old-fashioned lament
in the reedy voice of my childhood,
once more, by God, it will crush my unhappy heart
to hear you inside my head,
so far
away, as if I were watching you
in a smoky, broken mirror...

2
It's spring outside, my dear wife, spring.
Outside on the plain, suddenly the smell
of fresh earth, birds singing, etc.
It's spring, my dear wife,
the plain outside sparkles...
And inside the bed comes alive with bugs,
the water jug no longer freezes,
and in the morning sun floods the concrete...
The sun-
every day till noon now
it comes and goes
from me, flashing off
and on...
And as the day turns to afternoon, shadows climb the walls,
the glass of the barred window catches fire,
and it's night outside,
a cloudless spring night...
And inside this is spring's darkest hour.
In short, the demon called freedom,
with its glittering scales and fiery eyes,
possesses the man inside
especially in spring...
I know this from experience, my dear wife,
from experience...

3
Sunday today.
Today they took me out in the sun for the first time.
And I just stood there, struck for the first time in my life
by how far away the sky is,
how blue
and how wide.
Then I respectfully sat down on the earth.
I leaned back against the wall.
For a moment no trap to fall into,
no struggle, no freedom, no wife.
Only earth, sun, and me...
I am happy.

Tradução de Randy Blasing and Mutlu Konuk (1993)

FOXX disse...

gente
como isso me doeu!

Mai disse...

Muito, muito bom. Parabéns!
Abraços,

Isolado disse...

Yeaahhhh man, quando a gente não
tem nada, o pouco é muito, e quando
a gente tem tudo, geralmente fazemos merda.


Saudações!