17 de mai de 2008

Sobre ausências prolongadas, datas esquecidas, chances desperdiçadas e ‘déjà vu’¹

Já li não sei onde que, via de regra, um blog que deixe de ter seu conteúdo atualizado por mais de um mês irremediavelmente deixa de ser lido; abandonado há dois, talvez fosse o caso de mudar o nome do meu para Notas Cadavéricas...

Não que fosse minha intenção: sem serem grande coisa, estas minhas notas acabaram por ocupar a parte central da minha vida (para bem ou para mal, não importa) e o que eu menos queria é que minha linha de raciocínio fosse interrompida (outro parêntese: minhas ‘linhas de raciocínio’ costumam durar semanas; coisa de monomaníaco).2

Aconteceu, porém, de haver a coincidência entre a necessidade profissional de um velho amigo e a minha de saldar uma já lendária conta de bar. Como vivo de expedientes, me pareceu uma boa ocasião de matar três coelhos com uma só cajadada: ajudar um camarada por um curto período, reforçar outros laços de amizade e limpar meu nome na praça. Wunderbar!3

Doce ilusão: o tripalium4 ao qual voluntariamente me submeti me prendeu por mais tempo que o esperado (além de eu não ter a menor inclinação para a instalação e manutenção de sistemas de segurança); meus amigos são difíceis de se achar, em horário comercial ou fora dele e minha estada forçada por mais trinta dias acabou por me tomar boa parte do dinheiro que levantei. É sempre assim: quanto mais cuidadosamente eu planejo minhas ações, menos elas correm como eu planejei...
E, com tudo isso, o que mais me custa aceitar é a ausência da blogosfera. Sinto falta de partilhar a minha falta de talento e companheirismo com o talento e amizade que nela descobri.

Então comecei a sonhar com a volta ao fim-de-mundo (quem diria que teria saudades daqui?), esperando retomar minha vida do ponto em que ela de certa forma parou liberando o furioso enxame de insetos venenosos que zumbe no meu cérebro e do qual, sabe-se lá por qual motivo, vocês parecem gostar. E o que acontece então?

Nada.

A triste verdade: escrever, no meu caso, é fruto do ócio e mais, do ócio forçado: estar aberto, por falta do que fazer, aos acontecimentos dentro e fora da consciência, grandes ou pequenos (com preferência aos de dentro e aos pequenos); uma tentativa de manter vivo meu modorrento espírito. E a última coisa que tive nesses dois meses foi ócio; o resultado foi algo parecido com o coma criativo que me acometeu por mais de 2o anos entre o final de minha vida escolar e o início deste blog que, por sua vez, foi uma reação ao surto de síndrome de pânico que sofri há dois anos (me pergunto se vocês percebem meu temor de uma recaída...).
Eis então que os tais insetos venenosos estão curiosamente quietos; estou vazio como o copo a minha frente.
Sem contar que o ferro-velho que eu insisto em chamar de computador dá sinais de definitiva agonia: minhas últimas tentativas de pô-lo para funcionar esbarraram na famigerada tela azul das versões arcaicas do suposto sistema operacional de Mr. Gates of Hell (meu reino por um Linux!).

Intermezzo
Cena de cinema: tomada do alto com os braços abertos, gritando aos céus inclementes “Por quê?! Por quê?!”


Primeira fase da choradeira concluída; passemos à próxima.

***

No dia 21 de abril passado meu blog completou um ano de existência e eu sequer mencionei o fato. Estava em meus planos fazê-lo, mas por motivos já alegados, não foi possível; agora, numa tentativa de vencer a inércia, aborrecerei-os com um comentário a posteriori (calma, agora serei breve!).

Vocês já sabem, suponho eu, que estas notas surgiram como um dos tantos recursos de que lanço mão para manter minha um tanto frágil sanidade mental; digo que elas me deram muito mais: mudaram o conceito altamente negativo que eu tinha a respeito das inteligência e sensibilidade na Internet; criaram laços de amizade cuja importância para mim é muito maior que minha capacidade em retribuí-los e deram (a despeito do que eu declarei na minha última postagem) um objetivo à uma vida à deriva.


Intermezzo
Provavelmente estou esquecendo de mais alguma coisa importante, mas vocês hão de convir que, sendo amnésico...

Que mais posso dizer senão muitíssimo obrigado a todos vocês, presentes ou ausentes?
No momento eu não sei, exceto que este espaço é tão seu quanto meu. Espero de todo o coração que não lhes seja uma total perda de tempo...

Que venha outro ano!

***

Dois tempos:

Data: início do ano - Perdi a oportunidade de investigar o surgimento de estranhas ‘marcas’ nos canaviais da região onde moro;

Data: 22/04 - Durante minha estada no ABC paulista, ocorre um tremor de terra de 5,2 pontos na escala de Richter, o mais forte em já registrado em São Paulo e eu, estando no nível do chão, sequer senti!

Lugar errado, momento errado, pessoa errada...


Coda
Tenho a inquietante impressão que meus textos estão assumindo o tom vago e lamuriento dos primórdios deste blog. “Eterno Retorno”?

Nietzsche explica...




1 Do francês ‘C’est du déjà vu’: aquilo que dá a impressão de já ter sido visto ou presenciado, ou
Neurologia/Psiquiatria: ilusão epiléptica durante a qual o indivíduo interpreta mal objetos que, entretanto, vê bem e que passam a ter, para ele, características anormalmente familiares;
2 Psiquiatria: forma de insanidade mental em que o indivíduo dirige a atenção para um só assunto ou tipo de assunto; fonte: Dicionário Aurélio Século XXI;
3 Alemão: maravilhoso;
4 Latim: antigo instrumento de tortura, raiz da palavra trabalho (leitura sugerida: “O Direito à Preguiça”, de Paul Lafargue).

3 contrapontos:

Fernando Amaral disse...

caceta.... e agora? Tenho um prazo... derradeiro, fatal, chato, modorrento... precisa estar pronto até as dezenove horas... antes... para dar tempo de protocolos.... e agora? acho que ficarei monomaníaco....

Abraço.

Johnny disse...

Que clichê safado foi esse hein? rs...

Uma tomada do alto capturando alguem de braços abertos gritando "Porque? Porque?" (Muito bem, está certinho tem que ser duas vezes...)

Mas para subir ao topo dos 10 maiores clichês do cinema, faltou uma chuva torrencial em cima desse protagonista... rs...

Cara, como que você falta no seu aniversário? Não vale dizer que é amnésico!

Quanto às marcas no solo, meu comentário é simples: Escapou, hein?

Anônimo disse...

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