14 de nov de 2007

Um Monólogo Stevensoniano*

— O que você está fazendo?
Escrevendo.
— Sobre o que?
A única coisa que sei: minhas dúvidas.
— E por que alguém se interessaria em ler isso?
Essa é uma delas...
— Não tem medo que percebam que tipo de doente mental você é?
Me surpreende que ninguém tenha percebido ainda!
— Mas se está claro que você é um psicótico maníaco-depressivo...!
Hoje em dia se diz "transtorno bipolar de humor".
— Persiste a dificuldade em saber por que faz isso...
"...uns estão despertos nas trevas, outros são sonâmbulos na luz."
— Como é?!
Gibran Kalil Gibran. Foi ele quem disse.
— E o que isso significa?
Não sei, gosto da frase.
— ...
...
— Se até agora você passou apenas por questionador confuso, esse diálogo pode pôr sérias dúvidas sobre sua sanidade mental no juízo dos leitores.
Juízo? Palavra interessante de se usar!
— Você me entendeu...
Sim, entendi.
— E então?
De que adiantaria fingir normalidade? Quanto tempo poderia enganar alguém?
— Não tem se enganado esse tempo todo?
Caralho!
— Não baixe o nível, por favor!
Concordo, me desculpe. Onde estávamos?
— Estamos justificando o elogio de Erasmus de Rotterdam à loucura.
Evidente exagero, este é apenas um diálogo sem rumo.
— Característica principal de suas ações e pensamentos, diga-se...
Bem, que rumo você propõe que tenham? Se nem mesmo a própria vida tem rumo? Se, aliás, nem existe tal coisa de "vida"?
— Nietzsche falando...
Ou Buddha.
— Ou isso.
Isso.
— Insiste em continuar?
Veja, tenho que apresentar alguma coisa...
— Por que?
Por que? É uma excelente pergunta!
— Obrigado! E a resposta?
Não estou bem certo; se você percorrer estes seis meses que exponho aqui, vai notar que não havia um objetivo definido desde o início. Por que haveria de existir um agora?
— É, boa resposta.
Acha mesmo?! Ora, obrigado.
— Não tem de que; de qualquer forma, continuamos (me atrevo a incluir os leitores na minha dúvida) sem entender por que se expor assim.
E por que não? Já pensou na possibilidade de eu não ter outra coisa para mostrar (ou fazer)?
— Então é apenas isso? Um mero passatempo?
Na verdade não. Esquece que faço parte de uma comunidade de autores, que eu também leio, além de escrever?
— É verdade. Então é disso que se trata, retribuição?
De certa forma, sim. Pelo menos em parte...
— Voltamos ao início...
Não volta tudo?
— Então é assim que vamos concluir?
Isso não é a conclusão, é só o começo...
— Começo? De que?
Está querendo saber demais...


* De Robert Louis Stevenson, escritor inglês autor de "Strange case of Dr. Jekill and Mr. Hyde".

7 contrapontos:

vera maya disse...

"— Isso não é a conclusão, é só o começo...
— Começo? De que?
— Está querendo saber demais..."

Rssss..Sei como é, pensador!

Bjaum

Anônimo disse...

Voltamos ao começo. Me lembrou aquela do "antes de conhecer o tao, uma montanha era só uma montanha; quando passei e meditar sobre o tao, a montanha deixou de ser montanha; quando dominei o tao, a montanha voltou a ser só uma montanha."

Bom post. Bom monólogo (eu conversando comigo não sou tão civilizado assim, hahah!)

Ah, e sabe que eu sempre confundo quem é o médico e quem é o monstro? Já fui fazer metáforas usando os dois e entrei pelo cano.

Lanark disse...

Antes de ler o asterisco no final do texto, meu comentário seria algo do tipo:

"caramba, a semelhança entre nós e o nosso modo de pensar e escrever é assombrosa!"

Mas constatando que isso é um trecho de um escritor famoso, só posso dizer:

Puta que pariu! A semelhança entre as nossas formas de pensar e escrever se assemelham de modo assombroso aos desse escritor, seja ele quem for!


Se você não tivesse dito, eu acharia que quem escreveu esse texto foi você. E sinceramente? Eu ainda acho!

Muito bom, de qualquer forma.

(Oh, um comentário original, finalmente!)

Fernanda Passos disse...

rsrsrsrs. muito bom! tb ia lendo já pensando no comentário. até ver o tal do asterisco! excelente o texto. aliás, sendo vc ou o autor do mesmo, devo dizer que escrevem de forma fantástica. É isso que me faz sempre voltar aqui. E mesmo qd não encontro novos textos, volto depois. Fanzoca. Mas isso tu já sabes.
Bjs.

o amnésico disse...

Aproveitando a folga do capeta que tomou meu pc, esclareço: só o termo "Stevensoniano" é inspirado no inglês autor d'"O Médico e o Monstro"; esse belo monólogo é mesmo obra minha (e de minha sombra)! As ambiguidades deveriam ficar apenas no texto, não no título...


Envaidecido com seus elogios! Muito obrigado!

Arthurius Maximus disse...

Pelo texto dá-se claramente para perceber os meandros desse pensamento conturbado. (rs)

Como sempre, um cara criativo. Excelente.

Johnny disse...

Faz tempo que não consigo conversar comigo... Ando muito anti-social!... rs...

(quando estava digitando, quase saiu um ain't social. Que estranho...)

Meu lado social se manifesta, e te manda um abraço.