30 de nov. de 2008

Obeah

Uma mecha dos seus cabelos, aparas de suas unhas,

Um maço de losna, a bexiga de um baiacu.

Minhas lembranças de você, meu ódio, meu amor...

Terra de cemitério, com a graça de Baron Samedi e Maman Brigit;

Velas pretas e vermelhas; uma garrafa de rum; uma noite de lua cheia.

Legba
, acorde das águas!



Receita para fazer zumbi.

27 de nov. de 2008

"Only the End of the World again"*

2008:

Como de costume, começou com promessas vazias.

Como de costume, terminou com mentiras sórdidas.

Entre o começo e o término, alguma coisa mudou, não necessariamente para melhor.


Carpe diem.

18 de nov. de 2008

O devorador de medos

Você sabe do que se trata?
Aquela sensação de que o mundo vai se acabar,
Aquela incapacidade de olhar para dentro de você,
Aquilo tudo que você não admite que você é?
É isso que eu vou tomar de você...

Num certo momento, você vai se sentir mais leve,
Sem aquele incômodo que o(a) leva a olhar sempre
                                                               [por sobre o ombro.]
E a vida vai parecer mais colorida e perfumada;
Você vai sorrir, vai cantar e dançar como em criança.
Vai ser grato(a) por eu tê-lo(a) amaldiçoado...

Porque eu lacrei a porta que leva para dentro de você.
E mesmo que você pudesse olhar por alguma fresta nela
A única coisa que veria seria um salão abandonado,
E a mesa com os restos do banquete
Que eu fiz com o que havia de humano em você...

9 de nov. de 2008

Cartas de um homem na solitária

De Nazim Hikmet, 1938

1
Eu gravo seu nome na pulseira de meu relógio
com minhas unhas.
Onde estou, você bem sabe,
não tenho um canivete de cabo perolado
(eles não me dão nada afiado)
ou um plátano com a copa entre as nuvens.
Árvores podem crescer no terreiro
mas eu não tenho permissão
de olhar para o alto e ver o céu...
Quantos outros haverá aqui?
Eu não sei.
Estou só, longe deles,
eles estão todos juntos, longe de mim.
Falar com qualquer um além de mim mesmo
é proibido.
Então eu falo sozinho.
Mas minha conversa acaba tão aborrecida,
minha querida, que eu canto canções.
E, você bem sabe,
aquela minha voz horrorosa, eternamente desafinada
acaba por me tocar tanto
que meu coração sangra.
E como o orfão desamparado
perdido na neve
daquelas velhas histórias, meu coração
— com pálidos olhos úmidos
e fungando sempre —
só quer se aninhar em seus braços.
E não me envergonha
ser nesse momento
tão fraco,
tão egoísta,
tão humano somente.
Sem dúvda meu estado pode ser explicado,
fisiologicamente, psicologicamente e o que mais.
Ou talvez seja
esta janela gradeada,
este pote de barro,
essas quatro paredes,
que há meses me impedem de ouvir
outra voz humana.

São cinco da tarde, minha querida.
Lá fora,
com seus áridos,
estranhos ruídos,
sua abóbada barrenta,
e um magro cavalo manco,
imóvel na infinitude
— entenda, isto é suficiente para levar alguém à loucura —
lá fora, com toda a sua indústria e toda a sua arte,
uma noite calma desce rubra sobre um espaço sem árvores.
Hoje outra vez, a noite cai subitamente.
Uma luz alumiará o magro cavalo manco,
E o espaço sem árvores, nesse lugar de desesperança,
exposto a minha frente como o corpo de um homem rude,
de repente se encherá de estrelas.
Alcançaremos o invetável fim, ainda uma vez.
quando se diz que o palco está pronto
para a exibição de uma elaborada nostalgia.
Eu, o homem em mim,
de novo exibirei meu costumeiro talento,
e cantarei um lamento fora de moda,
na esganiçada voz de minha infância.
De novo, valha-me Deus, esmagará meu infeliz coração,
ouví-la em meus pensamentos,
tão longe,
como se eu a visse num embaçado espelho quebrado...

2
É primavera lá fora, minha querida esposa, primavera.
Lá de fora, de repente vem o cheiro
da terra fresca, pássaros cantando e todo o resto.
É primavera, minha querida esposa,
o terreno lá fora faisca...
E aqui a cama fervilha de insetos,
a água não congela mais no pote,
e o sol da manhã inunda o concreto...
O sol — todo dia,
agora até o meio-dia
ele vem até mim e se vai,
apaga e acende...
E enquanto o dia se torna tarde, sombras vestem os muros,
o vidro da janela gradeada pega fogo,
              e é noite lá fora,
              uma noite clara de primavera...
E aqui dentro faz a hora mais escura da estação,
resumindo, o demônio Liberdade,
com suas escamas brilhantes e olhos chamejantes,
se apossa do homem em nós
              especialmente na primavera...
Sei disso por experiência, minha querida,
              por experiência...

3
Hoje é domingo.
Eles me trouxeram para tomar sol pela primeira vez
e eu fiquei lá parado, consciente pela primeira vez na vida
              de como o céu é distante,
              de como é azul
              e de como é vasto.
Então eu me sentei respeitosamente no chão.
Me encostei no muro.
Por um instante, nenhuma armadilha no caminho,
nenhuma luta, nenhuma liberdade, nenhuma esposa.
Apenas terra, sol e eu...
Estou feliz.

8 de nov. de 2008

Enquanto isso...

Não me recrime por eu desperdiçar meu tempo sonhando: eu não lhe recrimino por você desperdicar seus sonhos tomando conta do relógio.

29 de out. de 2008

Non sequitur

Estou de volta ao fim de mundo; minha estada a trabalho no ABC paulista foi mais longa do que previsto e na maior parte, pura perda de tempo. Tanto que, logo chegando aqui, fui chamado de volta...

Não fui: posso perfeitamente perder tempo em casa.

Meu velho computador pifou; com peças e sucatas que trouxe da viagem montei outro computador velho. Ele não tem se adaptado muito bem ao calor e a energia elétrica intermitente daqui, mas sou insistente: espero tê-lo em pleno funcionamento até o final desta semana.

Não sei como retomar minha rotina tão rudemente interrompida; suponho que deva começar visitando a blogosfera a partir da época em que parti: talvez funcione.

Esperava reencontrar minha criatividade, ou o pouco dela que me resta, para juntos tentar entreter os poucos visitantes que ainda não perderam a paciência conosco. Mas ela se foi: não deixou bilhete explicando o motivo; na verdade, nem seria necessário. Ela apenas se foi...

O ausente está de volta, mais ausente de si mesmo do que nunca.



Bem-vindos a minha casa vazia.

27 de out. de 2008

Crise econômica 5 x Notas de um Amnésico 0

Há coisa de um ano (1/11/2007), o Bruno dos acepipes escritos / citados descobriu um blog capaz de calcular (por critérios que até hoje não entendo, mas, enfim...) o valor comercial em dólares de um blog. Movido por natural curiosidade, naveguei até lá e qual não foi minha surpresa ao descobrir o suposto valor de minhas Notas:

My blog is worth $4,516.32.
How much is your blog worth?



Nada mal para um blog pretensioso e sem graça, hein? Agora, não tendo nada melhor para fazer e mais uma vez curioso quanto aos possíveis efeitos do atual momento conturbado da economia mundial, refiz a avaliação:


Preciso dizer mais?



Eu digo: devia ter vendido enquanto valia alguma coisa!

23 de out. de 2008

Nota de falecimento:

Noticio o passamento do microcomputador Intel Pentium™ geração II/PCChips M747 BX-Pro™, de que fui o estressado proprietário; atendia pela alcunha de “ferro-velho” (Junkyard Fantasy, quando de suas participações na Parada do Orgulho GLBT). Não foi possível verificar a causa mortis, tão misteriosa quanto os inúmeros travamentos, chiliques e bebedeiras a que era dado, o pobre.

Deixa os periféricos: monitor Sampo™ (3ª união), teclado Satellite™, mouse Genius™, unidade de leitura de CD-ROM SONY™ e as placas offboard: fax/modem U.S. Robotics™, LAN VIA Rhine III™ e vídeo Trident™, além de leitor de disquetes 3½” e dispositivo de memória RAM de 128 MB (ambos “genéricos”), HD Fujistu™ de 8 GB (2ª união) e os sistemas operacionais Windows NT4/98/2000™; a fonte de alimentação, genérica, encontra-se em estado de coma induzido e suas chances de recuperação são incertas.

Sua última vontade expressa, segundo o documento electric_funeral.txt, foi ter seu gabinete embalsamado com óleo desengripante e vaselina retificada, envolto em faixas de plástico-bolha e transladado para o Egito, sendo então depositado no chamado "Sarcófago" da Câmara do Rei na Grande Pirâmide de Gizé, na planície do mesmo nome na cidade do Cairo.

(A vontade atual do proprietário é reduzí-lo a pó com uma marreta de 5 quilos).

Seu epitáfio:

01000110011011110110100100100000011101000111010101100100011011110010 000001100011011101010110110001110000011000000010000001100100011011110010 0000010000100110100101101100011011000010000001000111011000010111010001100101011100110010000000100001

Traduzido do código binário:

Foi tudo culpa do Bill Gates!

2 de out. de 2008

Inventário de idéias perdidas

Eu tinha uma idéia fantástica para postar agora. E esqueci...!


Isso tem que ficar registrado! Agora!!



Tenho algo a confessar: eu não esqueci a idéia, encontrei anotada num saquinho de papel marrom no bolso da minha calça!

Aliás, não era para este blog, mas para "Os Doentes".

E nem era uma idéia tão boa assim...

1 de out. de 2008

(Walkin' Thru The) Sleepy City*

Não nasci aqui, mas pouco importa, minha cidade natal fica a quarenta minutos de caminhada (meia hora, com tempo bom, se eu estiver disposto); apenas tirei um tempo para caminhar por essas ruas que eu desconheço tão bem, depois da chuva que caiu.

 

It’s always raining in Sunny Side Road...**

 

Fico pensando em vida e fracasso. Vida não é nada demais, estamos todos nessa; já o fracasso me fascina desde muito tempo: gostaria de sentir que não fiz nada de minha vida, que meu tempo aqui foi jogado fora (já ouvi isso, mais de uma vez) e que, de alguma forma, a posteridade vai me cobrar o que não realizei. Sentir o peso do fracasso, enfim. Quase senti isso na adolescência.***

 

Não sinto isso. Não sinto nada, na verdade.

 

Por alguma razão meio obscura, gosto disso: sinto-me como Kwai Chang Caine, exilado de um país que não era o seu (de todo, pelo menos) para um outro país que também não era o seu, tentando viver segundo uma filosofia que funciona dentro de templos Shaolin. O detalhe marcante é ter de vivê-la num ambiente que a ignora, quando não despreza.

E então a chuva recomeça a cair. Lembro de quanto andei debaixo da chuva por essa cidade, vendo o movimento nos bares, nas igrejas, nas casas e fábricas, me perguntando o porquê de tudo aquilo, o porquê de mim mesmo naquilo tudo.


Estou aqui por causa dos meus amigos.


Até hoje, não encontrei resposta àquelas perguntas e estranhamente, eu, que já fui apelidado de 'porquê' por uma mãe desesperada de não encontrar explicações que satisfizessem o filho curioso, não faço a menor questão de ter respostas, creio que entendi o significado das perguntas: lila.


Sânscrito - लीला. Passatempo.


Faço perguntas porque tenho capacidade de fazê-las e não porque elas tenham de ser respondidas. E o Universo me dá material para formular novas perguntas porque talvez, como eu, não tenha nada melhor para fazer...

 

 

 

*Título de canção do álbum "Metamorphosis", Rolling Stones, 1975.

**Trecho de "Exquisitely Bored", do álbum "All the Best Cowboys Have Chinese Eyes", Pete Townshend (The Who), 1982.

***Mas afinal, quem não sentiu?