18 de jun. de 2010

Sal Amargo

Aparta-nos da multidão ao destacar o que há de igual em nós

Cheia até a borda é a vida
quando não se sabe viver

Ontem nós não somos
vimos o futuro passar e nem adeus acenamos
Hoje se fez tarde nas décadas
de intragável silêncio
Rompantes sem importância fazem valer a pena

Donde vamos buscar histórias de preencher o tempo
sem saber caminho ou razão
Exibindo a marca de nascença que
nos traz a morte
Sobre nossas cabeças um sol
que sabe a escuridão e doce enfado
E uma mulher abre mão de si como todas abrem

(dor de cabeça de fome e tabaco que me traz novas linhas
enquanto pedestres e bicicletas passam por mim)

Não levamos nossas fronteiras aos céus
visto que os céus não alcançamos
Somos criaturas do chão sonhando
o dia que há de amanhecer em nossa consciência

Apaga a luz e vai dormir

28 de mai. de 2010

Notícia Sobre a Recente Viagem do Verme à Sua Terra Natal e Suas Conseqüências

Era uma vez um verme cuja grande ambição era ser verme; ambição que, diga-se de passagem, custava-lhe grande esforço para ver realizada. Assim, quando seu desespero alcançava o limite do suportável e a ocasião exigia (leia-se: seus velhos amigos pediam, sabe-se lá por qual motivo), ele abandonava a carcaça seca em que vivia e arrastava-se para o seu local de origem, onde a vida fervilha como vermes numa carcaça não lá muito fresca nem lá muito seca. Onde, sendo verme e não grande amigo da vida fervilhante, nunca se sentiu à vontade, aceitando o desafio mais por inércia do que por outro motivo.

Fazendo isso, deixava de lado sua rotina que incluía deixar seus dispersos pensamentos e sentimentos expressos num meio moderno que não combinava consigo e tomar conhecimento dos pensamentos e sentimentos (quiça dispersos) de outras criaturas que, ainda que pudessem ou não ser vermes como ele, pareciam ter mais (ou menos) a expressar: trocar essas impressões, apesar do estranho medo que elas lhe causavam, era o maior prazer que vinha sentido nos anos recentes de sua aleatória existência — e uma falha nessa rotina representa uma perda irreparável da qual ele se ressente muito, visto que ela retira de sua vida o que de mais essencial há nela — ou seja, a qualidade de ser verme. Foi-se, mesmo assim.

Poderia ter se encontrado com aqueles que lhe ensinaram o caminho, mas conseguiu — sem muito esforço — perder a chance.

Poderia ter reencontrado muito mais pessoas queridas do seu passado que chegou a encontrar. De novo, falhou.

Poderia ter trazido consigo recursos suficientes para tornar sua vida e a de seus próximos um pouco melhor. Ainda nisso fracassou.

Hoje, ele está de volta à carcaça seca onde se sente menos sem lugar, mas impossibilitado, devido à sua natural incompetência em administrar a própria vida, de tentar reatar os poucos laços que ainda não conseguiu destruir e buscar o caminho da realização de sua ambição; por força do hábito, revolve-se na autocomiseração e verborragia, engolfado pelo calor e a poeira do fim de mundo.



Pode-se acusá-lo de tudo, menos de ser infiel à sua rotina...

20 de abr. de 2010

E, de novo com vocês, o farsante!

Aqui ainda estou, para nossa surpresa!

Quando iniciei este blog, não sabe o rumo que tomaria... e ainda não sei!

Só o que sei é que ele tem me dado mais alegrias nos seus dois anos de existência que nos meus quarenta e seis de idade. E muito disso tem sido pelos poucos mas inestimáveis leitores que aqui vêm de vez em quando. Só peço perdão pela falta de reciprocidade; não é intencional, acreditem.

Continuo tentando agir direito, mesmo sem talento para tanto.



E que mais posso dizer senão OBRIGADO!

2 de abr. de 2010

Contagem Regressiva

46 anos de idade.

O mundo cada vez menor.

O tempo cada vez mais curto.

Os amigos cada vez mais distantes.

Os sonhos, sempre impossíveis...




Faz sentido!

13 de fev. de 2010

Abram Alas, é Carnaval!


Aqui não.

6 de fev. de 2010

E o Maldito Silêncio...

Todas as melodias que eu capto no vento, no chão, na chuva, nas paredes, nas vozes...

Todas as harmonias que passeiam pela minha mente que passeia por mentes alheias...

Todos os ritmos que chacoalham meu exausto corpo de fogo...

... tudo o que eu não sei traduzir em música.



Nem o sono se parece tanto com a morte quanto isso!

1 de fev. de 2010

Imaginem...

Um mundo em que as promessas sempre serão quebradas.

As misérias sempre serão as alheias.

A Esperança sempre aguardará no fundo da caixa.

Vítimas sendo sempre vítimas, mesmo quando são algozes.



Imaginem...

31 de jan. de 2010

Perdida na multidão, ela foi

Eu nunca escrevi sobre amor aqui. Eu nunca escrevi nada que fosse real. Nunca achei que precisasse.

Até que ela me achou, perdido na vida. Até hoje.

Hoje, eu não sei aonde ela se perdeu, ou se fui eu que a perdi. Hoje, eu estou perdido na multidão, procurando por ela. Por ela que eu não quis achar quando podia...

Vera Lucia, luz verdadeira de minha vida perdida.

Perdição de minh’alma. Perdição de mim mesmo. Perdoe-me, luz que não iluminou as trevas que não queriam a luz.

A vela que amaldiçoava a escuridão apagou-se. Adeus.

Canto Triste de uma Adaga Enferrujada

Vocês sabem que eu nasci antes de vocês, antes do ferro, antes do bronze, antes do aço; e vocês sabem que eu sobreviverei aos seus escombros — em queratina, em esmalte, em marfim: eu sou o dente de tudo que vive, de tudo que mata.

Vocês sabem o quanto devem a mim, o quanto me amaram antes. Mas agora me rejeitam; então inventaram essa maldita prisão, essa bainha que me oprime, essa escuridão que cega a ambos, a mim e a vocês.

Paz, disseram vocês. Chega de sofrimento e mortes, disseram vocês. Chega de derramar sangue.

E em que sua “paz” resultou, senão num caudal de sangue ainda mais largo, ainda mais profundo, ainda mais gratuito? Sua inteligência serviu para outra coisa senão tornar a carnificina banal, algo que qualquer criança pode infringir a qualquer um — e qualquer um infringir a qualquer criança? Não foi institucionalizada a covardia imbecil do chumbo e da pólvora, da dinamite, do urânio, dos germes até, em nome de sua suposta “paz”?

Para isso me aposentaram, para isso me aprisionaram? “Chega de derramar sangue”?


... e para que serve o sangue, senão para derramar?

Ouçam minha profecia: chegará o dia em que, destituídos de seus malditos projéteis, imunizados de suas abjetas doenças, privados de seus imundos combustíveis, agastados de sua nojenta complacência com a miséria que alimenta vidas inúteis, cercados pelos cadáveres que sua volúpia homicida não pode assassinar outra vez, vocês se voltarão para o passado — implorando perdão, acariciando a empunhadura azinhavrada e clamando para que eu saia de minha prisão e lhes conceda a “paz” que não merecem.

E minha lâmina, quebradiça como folha seca pela ferrugem a que vocês a condenaram — minha sede de sangue há muito esquecida — se desfará em pó contra suas gargantas — imagem da esperança de repouso que vocês acalentaram em vão.

23 de jan. de 2010

O que foi, sem nunca ter sido

“Quizá la historia universal es la historia de la diversa entonación de algunas metáforas”.
Jorge Luiz Borges, "La Esfera de Pascal" in "Otras Inquisiciones" - 1952.



Na minha opinião, História é um trançado temporário de elipses sortidas.